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Por que as pessoas odeiam política, mas não conseguem ficar longe dela?

  • Foto do escritor: Tabuleiro Político
    Tabuleiro Político
  • 21 de mai.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 23 de mai.

A contradição entre o desprezo declarado e a incapacidade real de ignorar o jogo político


Áudio Por que as pessoas odeiam política

Narração em áudio disponível para facilitar o acesso de pessoas com deficiência visual, baixa escolaridade ou que prefiram ouvir o conteúdo.



Você percebeu que alguma coisa mudou nos seus encontros familiares nos últimos anos? Aqueles momentos de confraternização, de fraternidade e felicidade no reencontro, deram lugar a constrangimentos e debates, por vezes acalorados. Isso não acontece na sua família? Infelizmente, um espaço que deveria ser o do diálogo tem sido contaminado pela intransigência e o desrespeito. Mas nem tudo está perdido.


Preste atenção na próxima reunião de família. Ou no grupo de WhatsApp que você prometeu silenciar, mas nunca silenciou. Em algum momento, alguém vai dizer que política é um assunto que prefere evitar. E logo em seguida, às vezes na mesma frase, vai opinar sobre algum político, alguma lei, alguma declaração, algum escândalo. Com intensidade. Com raiva. Com a convicção de quem claramente pensa no assunto com bastante frequência.


Existe uma contradição que me fascina há anos: a mesma pessoa que declara "não gosto de falar de política" é, muitas vezes, quem fala de política com mais ardor. E não digo isso com julgamento, digo com curiosidade genuína. O que acontece com as pessoas para que precisem se distanciar verbalmente de algo que, na prática, não conseguem largar?


"O homem é, por natureza, um animal político."  Aristóteles, Política

Aristóteles disse isso há mais de dois mil anos e a frase ainda incomoda muita gente, talvez porque ela não seja uma aspiração, mas uma descrição. Não se trata do que deveríamos ser. Trata-se do que somos, queiramos ou não. Vivemos em sociedade. Partilhamos recursos, espaços, leis, serviços públicos. Tudo isso é política. O bairro que tem calçada e o que não tem: política. O posto de saúde que funciona e o que está fechado: política. O ônibus que passa e o que nunca chega: política.


Eleitor diante de um celular lendo uma série de notícias ruins sobre política

Então de onde vem o ódio declarado?


Acredito que vem de um lugar muito compreensível: a decepção acumulada. As pessoas não odeiam política porque ela seja abstrata e distante. Odeiam porque a política as afetou, e mal. Votaram em alguém que prometeu e não entregou. Acompanharam um escândalo. Perderam a esperança depositada em um candidato que, no poder, pareceu outra pessoa. Esse ciclo de promessa e decepção, repetido por décadas e potencializado por políticos que se alimentam do ódio alheio, foi criando uma espécie de armadura emocional: a alegação de desinteresse como proteção contra novas frustrações.


Dizer "não me interesso por política" é, na maioria dos casos, dizer: já me machuquei demais para continuar acreditando.

Mas a armadura tem um problema: ela não funciona. Porque a política continua acontecendo com ou sem a nossa participação. O imposto continua sendo cobrado. A escola continua existindo, ou deixando de existir. O candidato continua sendo eleito, por outros. A omissão não nos protege das consequências. Ela apenas nos retira da conversa em que essas consequências são decididas.


Há também outro ângulo que me parece importante: o espetáculo. A política contemporânea, amplificada pelas redes sociais, transformou-se em algo muito difícil de ignorar, mesmo para quem quer. Cada fala vira meme. Cada gesto vira trending. Cada decisão vira guerra nos comentários. Não é possível abrir o celular por cinco minutos sem se deparar com alguma declaração, denúncia ou polêmica política. Nesse ambiente, declarar desinteresse é quase um ato de resistência, mas um ato que raramente sobrevive ao próximo post.


O que eu penso? Que a saída não está em fingir que política não existe, nem em mergulhar nela com raiva permanente. Está em algo mais difícil: entendê-la como ela é, um campo de disputas reais, com gente real, onde nenhuma solução é simples e nenhuma promessa deve ser aceita sem questionamento. Olhar para a política com os olhos abertos: sem a ilusão de que ela vai nos salvar, mas também sem a ingenuidade de achar que podemos viver como se ela não existisse.


Quem odeia política e continua falando dela, no fundo, ainda tem esperança. Só não sabe mais onde colocá-la.


E esse, talvez, seja o ponto de partida mais honesto de todos.


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