Autenticidade não é estratégia
- Tabuleiro Político

- 21 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de mai.
O olhar de quem observou de dentro, sem ser protagonista, e o que isso revela sobre o que o eleitor realmente vê
Narração em áudio disponível para facilitar o acesso de pessoas com deficiência visual, baixa escolaridade ou que prefiram ouvir o conteúdo.
Passei muitos anos com uma câmera na mão em eventos políticos. Comícios, posses, sessões legislativas, bastidores de campanha, reuniões de partido, atos públicos, celebrações de vitória, noites de derrota. Vi políticos de muitos matizes, em muitos momentos, com e sem público.
O fotojornalista tem um privilégio estranho: está presente, mas não é o foco. As pessoas falam, gesticulam, reagem, negociam, e eventualmente esquecem que ele está lá, ou pelo menos baixam a guarda. É nesse momento que a câmera capta o que não estava previsto no roteiro. O que se aprende sobre política olhando por uma lente dificilmente se encontra em livro.
A autenticidade não é uma estratégia de comunicação. É a ausência da necessidade de uma.
O político autêntico é igual com e sem público. O mesmo gesto, o mesmo olhar, a mesma atenção dispensada ao cidadão que o para na rua e ao líder que ele precisa impressionar. Aprendi a identificar a autenticidade pela consistência, pelo fato de que a pessoa é basicamente a mesma nos momentos em que acredita não estar sendo observada.
Nesse sentido, Leonel Brizola era um fenômeno à parte. A naturalidade com que interagia com o povo, e o povo com ele, era algo impressionante. Nos anos em que o acompanhei, em incontáveis ocasiões, pude testemunhar esse vínculo em situações corriqueiras: embarques e desembarques em aeroportos, momentos de refeição, deslocamentos de rotina. As pessoas sempre se aproximavam para um comentário, para pedir uma foto. Naquela época, os telefones ainda não eram câmeras, e minha presença ao lado dele facilitava esses registros. Como político, seu carisma era incomparável. Além dele, poucos, como Olívio Dutra, possuíam aquela mesma naturalidade no trato.

Um tempo depois da morte de Brizola, já próximo de encerrar a carreira de fotojornalista, tive a oportunidade de acompanhar Eduardo Campos em alguns roteiros. Reconheci nele algo semelhante: a mesma autenticidade no contato com as pessoas, porém com outro sotaque e com a jovialidade de uma geração diferente.
O político que performa é detectado pela inconsistência. Quando a câmera aponta, o sorriso aparece. Quando a câmera abaixa, some. Com apoiadores, é caloroso; com assessores, é outro. Essa inconsistência não é invisível. O eleitor a sente, mesmo sem conseguir nomeá-la.
Aprendi também algo sobre atenção. Os políticos que deixavam marca, que as pessoas realmente sentiam como presentes quando estavam diante deles, eram os que ouviam. Não os que tinham o discurso mais elaborado, nem os que sabiam as palavras certas a dizer. Os que paravam, olhavam nos olhos e ouviam o que a pessoa tinha a dizer, como se aquele momento fosse o mais importante do dia.
"Uma fotografia não é o que a câmera viu. É o que o fotógrafo sentiu." — Ernst Haas
O marqueteiro contribui com estratégia, posicionamento, linguagem. Tudo isso tem valor real, e eu vi, de perto, a diferença que faz uma campanha bem conduzida. Mas existe um limite que nenhuma técnica atravessa: o marqueteiro trabalha com o que o político já é. Pode amplificar, organizar, dar forma. Não pode inventar substância onde ela não existe. E quando tenta, o resultado é o oposto do pretendido, a embalagem sofisticada apenas evidencia o vazio dentro dela. O eleitor sente isso. Não sabe explicar, mas sente.

A lente me ensinou a desconfiar das performances e a reconhecer a presença real. Essa desconfiança me tornou um consultor mais exigente, porque sei que o eleitor vê, mesmo sem saber que está vendo. E o eleitor que percebe a inconsistência, ainda que não a nomeie, guarda esse sinal na memória.
A política autêntica não precisa de fotógrafo para ser boa. A política que performa só é boa quando o fotógrafo está lá. Hoje, o fotógrafo está em todo lugar, em cada bolso, em cada mão, em cada esquina. Sustentar um personagem por 24 horas, sete dias por semana, durante anos, é humanamente impossível. A máscara escorrega. Sempre escorrega.
Por isso, o trabalho mais importante que existe na consultoria política não é construir uma imagem. É ajudar alguém a encontrar, com clareza e coragem, quem já é, e aprender a ser isso em público, de forma consistente. Não é um trabalho de comunicação. É um trabalho de autoconhecimento.
A câmera não mente. Mas o político que não precisa mentir para ela tem uma vantagem que nenhum orçamento de campanha compra.


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