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O medo como combustível político: quem se beneficia quando o eleitor tem medo?

  • Foto do escritor: Tabuleiro Político
    Tabuleiro Político
  • 22 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 23 de mai.

Hobbes já dizia que o medo funda o Estado. Em 2026, o medo ainda funda campanhas. Uma análise honesta e incômoda.


O Medo Como Combustível Político

Narração em áudio disponível para facilitar o acesso de pessoas com deficiência visual, baixa escolaridade ou que prefiram ouvir o conteúdo.



Homem em primeiro plano observa preocupado a tela do celular, iluminada na escuridão, enquanto ao fundo uma multidão acompanha um discurso político. Um grande líder desfocado aparece sobre um palco, com as mãos erguidas como se manipulasse fios invisíveis ligados ao público. Cartazes exibem mensagens alarmistas como “O inimigo está entre nós”, “Você corre perigo”, “Caos à vista”, “Só eu posso te proteger” e “Medo é real”. A cena tem iluminação dramática e atmosfera sombria, sugerindo manipulação emocional, medo coletivo e o impacto das narrativas políticas sobre a percepção das pessoas.

Thomas Hobbes escreveu o Leviatã em 1651, no meio de uma guerra civil inglesa que havia ceifado dezenas de milhares de vidas. Sua conclusão era brutal e direta: sem um poder soberano que garanta a ordem, a vida humana é "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta". O medo, o medo da morte, do caos, da violência, era, para Hobbes, o fundamento do Estado. As pessoas aceitam abrir mão de parte da liberdade em troca de proteção.


Quatrocentos anos depois, o manual hobbesiano está intacto, e sendo aplicado nas campanhas eleitorais com uma eficiência que o filósofo inglês provavelmente invejaria.


O medo é o combustível político mais barato e mais eficaz que existe. Mais barato do que propostas bem elaboradas, que exigem estudo, consistência e a coragem de se comprometer com algo verificável. Mais eficaz do que projetos de esperança, que precisam de tempo para convencer e são fáceis de desacreditar. O medo funciona imediatamente, no sistema límbico, antes de qualquer análise racional. E uma vez instalado, é difícil de desfazer.


"A função do líder autoritário não é resolver os problemas, é manter viva a percepção de que os problemas existem e que apenas ele pode contê-los." — Erich Fromm, O Medo à Liberdade (1941)

Observe como funciona o roteiro. Primeiro, identifica-se um inimigo, real, exagerado ou inteiramente construído. Segundo, amplifica-se a ameaça que esse inimigo representa. Terceiro, apresenta-se o candidato como o único capaz de proteger o eleitor dessa ameaça. O raciocínio é fechado e autorreferente: quanto mais medo, mais necessário o protetor. Quanto mais necessário o protetor, mais poder ele acumula. Quanto mais poder ele acumula, menos espaço sobra para questionar se a ameaça era real desde o início.


Isso não é um fenômeno de direita ou de esquerda. É uma técnica, e ela foi usada, em diferentes gradações, por praticamente todos os campos políticos em algum momento da história. A diferença está na intensidade, no nível de desumanização do inimigo apontado e nas consequências reais que o discurso do medo produz sobre grupos específicos da população.


O político que não consegue te convencer pela esperança vai tentar te paralisar pelo medo. E a paralisia serve a ele, não a você.


Quem se beneficia quando o eleitor tem medo?


A resposta direta é: quem precisa que você reaja antes de pensar.


O candidato que domina o medo não precisa ter um plano. Não precisa explicar como vai reduzir a violência, gerar empregos ou reconstruir a confiança nas instituições. Ele só precisa que você acredite que, sem ele, algo terrível vai acontecer. Enquanto você estiver com medo, a pergunta certa, o que exatamente você propõe? nunca chega a ser feita. E se chegar, é desviada com facilidade: "você quer isso ou quer o caos?"


Beneficia-se também quem controla a narrativa da ameaça. Porque quem define o inimigo define o debate. Quem define o debate define os termos da escolha. E quem define os termos da escolha raramente perde, independentemente do que propõe.


Não estou dizendo que o medo é sempre irracional. Há medos legítimos, fundamentados em ameaças reais. Violência, desemprego, perda de direitos, são preocupações concretas que merecem respostas concretas. O problema é quando o discurso político usa o medo não como diagnóstico de um problema real, mas como ferramenta de controle emocional permanente. A diferença entre os dois é simples: o primeiro aponta o problema e propõe algo verificável. O segundo aponta o problema e propõe a si mesmo.


Ilustração realista e sombria de um comício político no Brasil em 2026. No centro, um político de terno discursa em um palanque; de sua boca sai uma fumaça escura que forma monstros com os textos "Ameaça Fabricada", "Controle Emocional" e "Votar com Medo". À direita, uma bomba de combustível antiga com a palavra "MEDO" em um painel vermelho despeja um líquido escuro em um pote de vidro. Ao fundo, aparecem a bandeira do Brasil e um relógio marcando o ano de 2026. No canto inferior esquerdo, um grupo de eleitores assiste à cena com expressões de pavor e desespero.

O Brasil tem um museu particular de ameaças que nunca se cumprem


No Brasil, a ameaça mais clássica é o comunismo. Há décadas o espectro é evocado, e milhões de pessoas, sem saber ao certo o que o termo significa, sentem-se genuinamente ameaçadas. Algumas chegam a acreditar que ele já existiu no país e temem que volte. O que poucos percebem é que, na eleição mais recente, o candidato de quem diziam que instauraria o comunismo venceu, e o comunismo não devorou ninguém. Mesmo assim, ele reaparecerá nos próximos discursos, e pessoas com medo dele voltarão a votar em candidatos que prometem acabar com algo que não existiu.


Mas o repertório vai além. Houve o candidato que acusou o adversário de querer confiscar o dinheiro da caderneta de poupança, foi eleito, e foi exatamente ele quem confiscou. Houve quem prometeu acabar com a violência (maior preocupação dos brasileiros atualmente, segundo o livro "Brasil no Espelho") distribuindo armas; os índices só subiram, porque as pessoas passaram a atirar umas nas outras e o problema segue mais grave ainda. E há a ameaça recorrente de que todos os empresários abandonarão o Brasil se determinado candidato for eleito, ameaça que se repete a cada ciclo, e cujos protagonistas, curiosamente, nunca vão embora.


E a corrupção? Essa está presente em todas as eleições, em todas as plataformas, e muitas vezes é brandida por políticos condenados por corrupção, que não hesitam em acusar o adversário de ser ainda mais corrupto. O debate chega, às vezes, à beira do absurdo: não se discute mais quem não é corrupto, mas quem é menos corrupto. A corrupção virou, ela própria, uma ameaça seletiva, usada como arma contra o inimigo e silenciada quando o acusado é aliado. Quem a denuncia com mais ardor raramente propõe mecanismos reais de controle. Prefere o medo difuso ao combate concreto.


O padrão é sempre o mesmo: o medo é real para quem sente, mas a ameaça é fabricada, ou distorcida a ponto de se tornar irreconhecível. E enquanto o eleitor está ocupado com o que teme, não sobra atenção para perguntar o que o candidato de fato propõe.


O teste que você pode fazer agora e que poucos fazem


É simples: o candidato que usa o medo oferece soluções verificáveis para a ameaça que aponta? Há metas, prazos, mecanismos de controle? Ou ele apenas se coloca como guardião indispensável de um perigo que, curiosamente, nunca se resolve, e que, a cada eleição, justifica mais poder para ele?


Se a ameaça nunca diminui, apesar de anos de mandato e promessas renovadas, é porque ela não deve diminuir. Uma ameaça resolvida não elege ninguém. Uma ameaça permanente reelege para sempre.


Existe uma última pergunta que raramente é feita, e que talvez seja a mais importante de todas: se o candidato que você apoia usa o medo como principal argumento, o que ele fará quando o medo acabar? O que restará, além do poder que o medo lhe deu?


Em 2026, antes de decidir por quem votar, observe o ponto de partida de cada discurso. Se ele começa pelo que te amedronta, desconfie. Não porque o medo seja mentira, às vezes não é. Mas porque governar pelo medo é muito mais fácil do que governar pela competência. E o eleitor que vota com medo raramente cobra resultados: está ocupado demais com a próxima ameaça.


Quem ganha quando você tem medo não é você.



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